2026-08-18
HaiPress

Fortaleza de Jiayuguan,última fronteira da Dinastia Ming — Foto: Marcelo Ninio
Em dois movimentos,num intervalo de 48 horas,o governo de Donald Trump voltou a apontar o tabuleiro principal de seu jogo geopolítico. Na terça,um vídeo do Departamento de Estado afirmou que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. Em seguida,um relatório da Casa Branca acusou mais de 40 países,entre eles o Brasil,de fazer parte de um “golpe” para burlar tarifas de importação.
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O que há em comum é que ambos têm a China como alvo. Narrado pelo embaixador americano no Panamá,Kevin Cabrera,o vídeo de cinco minutos escancara o desejo de reafirmar os EUA como “potência imperial” dominante na América Latina. A China não é mencionada,mas no contexto atual de rivalidade,está claro que o objetivo maior é frear sua penetração no continente. O plano vem tendo resultados.


Por trás do pêndulo político que levou a direita ao poder em vários países latino-americanos,um dos fatores é a pressão americana — em detrimento aos interesses chineses. O caso do Peru chama especial atenção,por atingir o mais importante investimento chinês em infraestrutura no continente,o megaporto de Chancay. Inaugurado em 2024,com direito a tapete vermelho para a presença no país do presidente da China,Xi Jinping,Chancay tem sido motivo de intenso debate político e jurídico no Peru.
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Em julho,um tribunal de Lima reverteu uma decisão anterior que restringia a capacidade do Estado de fiscalizar as operações no porto,depois de alertas do governo Trump de que o Peru estava abrindo mão de sua soberania. Com aporte de US$ 1,4 bilhão para construir e operar o porto,a estatal chinesa Cosco prometeu levar o caso ao Supremo. Em Washington,a expectativa é que a chegada ao poder da direitista Keiko Fujimori contenha a influência chinesa. Já Pequim aposta no pragmatismo da recém-eleita e no histórico de aproximação com a China de seu pai,o ex-presidente Alberto Fujimori.
Contexto: Em meio à tensão com EUA,China faz mais um aceno positivo para o Brasil
Enquanto isso,investidores chineses monitoram os movimentos da campanha presidencial no Brasil tendo em mente os exemplos de incerteza na região. Além do Peru,o mais lembrado é o Panamá,onde o Supremo anulou as concessões de uma empresa de Hong Kong para operar no canal,após coação dos EUA. Em cada dez investidores,dez mencionam esses casos,conta um empresário sobre sua experiência recente ao negociar o financiamento de projetos de infraestrutura e logística no Brasil com empresas chinesas.
De olho nos possíveis cenários pós-eleitorais,eles têm acompanhado o noticiário brasileiro “com lupa”,diz o empresário,pedindo para não ser identificado. Algo semelhante ocorreu na disputa presidencial de 2022,só que no sentido oposto. Na época,a torcida dos chineses era por mudança,devido às diferenças com Jair Bolsonaro. Agora,o consenso em Pequim é de que a continuidade é boa não só para os negócios,mas vital para os interesses estratégicos do país numa região que os EUA voltaram a ver como o seu quintal.
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Na denúncia da Casa Branca sobre o suposto esquema para driblar as tarifas americanas,um cavalo de Troia ilustra a capa do relatório,referência nada sutil à forma como o governo Trump retrata o papel da China na economia mundial. Desta vez o Brasil está longe de ser um alvo isolado: entre os acusados de ajudar a China estão também alguns dos mais tradicionais aliados de Washington,como Israel,União Europeia,Japão e Coreia do Sul.