Ataques russos a navios que transportam grãos na Ucrânia ameaçam oferta global de alimentos

2026-08-14 HaiPress

Navios parados em terminal no porto de Odessa,na Ucrânia — Foto: Bo Amstrup / Ritzau Scanpix / AFP

Enquanto famílias caminhavam recentemente por um calçadão na cidade portuária ucraniana de Odessa,um único navio cargueiro navegava ao longe. De repente,um drone caiu do céu azul e atingiu a embarcação,fazendo uma coluna de fumaça se espalhar pelo horizonte. O ataque,que testemunhei no fim de julho,fazia parte de uma campanha russa contra navios cargueiros que interrompeu quase todo o transporte marítimo de entrada e saída de Odessa,principal ligação da Ucrânia com a economia mundial.

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A campanha russa ocorre no início da temporada de colheita na Ucrânia — um dos principais produtores de grãos como trigo,milho e cevada — pode mergulhar as cadeias globais de abastecimento de alimentos no caos. Em 2022,durante os primeiros meses da guerra em larga escala,a Rússia estabeleceu um bloqueio dos portos ucranianos,provocando uma alta nos preços mundiais dos alimentos e colocando cerca de 70 milhões de pessoas sob maior risco de insegurança alimentar aguda.

— A Rússia está caçando essas embarcações — diz Dmytro Barinov,presidente da Associação de Portos da Ucrânia,em entrevista. — É uma caça profissional a embarcações civis.

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Os ataques russos são o capítulo mais recente de uma longa disputa pelo controle do Mar Negro e do vizinho Mar de Azov. Novas armas que permitem ataques de precisão a grandes distâncias transformaram os lentos navios cargueiros em alvos fáceis. Em junho e julho,as forças russas atacaram pelo menos 50 navios cargueiros,segundo autoridades ucranianas,matando mais de 30 civis.

A Ucrânia também tem atacado sistematicamente petroleiros e navios cargueiros ligados à Rússia. A campanha marítima de Moscou parece ser uma resposta à destruição,por parte da Ucrânia,da frota russa de petroleiros fluviais e marítimos no Mar de Azov e aos ataques contínuos de Kiev contra navios que transportam produtos russos,o que deixou a Crimeia ocupada isolada e enfrentando escassez de combustível.

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O mais recente grande ataque da Ucrânia ocorreu antes do amanhecer de quarta-feira,quando as forças do país atacaram o porto russo de Novorossiysk,no Mar Negro,com drones movidos a jato,mísseis e sistemas navais não tripulados,afirmou o presidente ucraniano,Volodymyr Zelensky. Segundo ele,posições de defesa aérea,píeres e infraestrutura portuária foram atingidos.

Três pessoas morreram,incluindo uma criança de 8 anos,e cerca de 60 edifícios residenciais foram danificados,informou nas redes sociais Veniamin Kondratyev,governador da região de Krasnodar,que inclui Novorossiysk. Andrei Kravchenko,prefeito da cidade,um importante centro de exportação de grãos,declarou estado de emergência. Segundo ele,o abastecimento de água da cidade foi suspenso depois que duas tubulações principais foram danificadas.

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A escalada da batalha entre Rússia e Ucrânia é um ponto de tensão dentro de um fenômeno global mais amplo que ameaça um dos princípios fundamentais da ordem internacional: a liberdade de navegação.

Esse sistema marítimo,que sustenta o comércio mundial moderno,está sob pressão à medida que atores estatais e não estatais utilizam cada vez mais drones,mísseis antinavio e minas para interromper rotas,especialmente em locais como o Mar Vermelho e o Estreito de Ormuz. O estreito,uma rota fundamental para o transporte de petróleo e gás,está efetivamente fechado desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro.

No porto de Odessa e em outros dois portos próximos,o bloqueio russo pode deixar milhões de toneladas de grãos retidas. Os três portos respondem por cerca de 60% da receita mensal total de exportações da Ucrânia,de US$ 3,5 bilhões (aproximadamente R$ 18,1 bilhões). O Conselho Agrícola Ucraniano,uma associação comercial,alertou para uma possível onda de falências e pediu empréstimos emergenciais e garantias do Estado.

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A situação remete ao bloqueio russo dos portos ucranianos em 2022. Em julho daquele ano,as Nações Unidas e a Turquia intermediaram a Iniciativa de Grãos do Mar Negro,que permitiu a retomada do transporte marítimo. O acordo desmoronou um ano depois. Mas,até então,a Ucrânia havia expulsado os navios de guerra russos da parte noroeste do Mar Negro e conseguia,em grande medida,manter as exportações marítimas.

À medida que a Rússia intensificou os ataques nas últimas semanas,um dos navios atingidos foi um graneleiro chamado Golden Leo.

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Blesson Sebastian,segundo oficial de 28 anos do Golden Leo,diz ter crescido em Chennai,na Índia,sonhando com o mar. Nos oito meses anteriores,havia estado várias vezes na Ucrânia,mas,quando sua embarcação chegou ao país no mês passado,disse que o ritmo dos ataques russos era muito mais intenso do que qualquer coisa que havia vivenciado em viagens anteriores.

A tripulação evitou o principal porto de Odessa e atracou nas proximidades,em Chornomorsk. O local não ofereceu refúgio. Um navio vizinho foi bombardeado por drones,matando um oficial e um agente de segurança,conta Sebastian. A tripulação do Golden Leo dormia em bunkers de aço.

Em 19 de julho,o navio estava totalmente carregado de grãos e partiu. Sebastian afirma ter visto famílias aproveitando uma tarde tranquila na praia enquanto a embarcação se afastava. Ele disse aos tripulantes mais jovens e nervosos que tudo ficaria bem. Às 16h30,o capitão sírio do navio foi para sua cabine rezar,enquanto Sebastian se sentou na ponte de comando para ler a Bíblia.

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Quando o barco estava a cerca de 6,4 quilômetros do porto,segundo Sebastian,uma sirene de alerta aéreo começou a tocar. Volodymyr Mykhailov,um ucraniano que estava a bordo para conduzir o navio para fora do porto,aconselhou que deixassem a ponte de comando,porque os drones russos costumam ter como alvo o convés de navegação,diz Sebastian.

Enquanto Mykhailov e Sebastian desciam as escadas,um míssil russo atingiu o casco.

— Choveu fogo — lembra Sebastian em uma entrevista perto do porto,recordando ter pensado que aquele era "o fim".

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Mykhailov foi arremessado contra Sebastian,e os dois caíram no chão. Ensurdecido pela explosão,Sebastian sacudiu Mykhailov,mas ele não reagiu. Morreu nos braços de Sebastian.

Cambaleando por entre estruturas de aço destruídas,Sebastian encontrou o capitão gravemente queimado e o contramestre inconsciente. Uma fumaça espessa e ofuscante saía da casa de máquinas. Os poucos sobreviventes correram para um pequeno barco que havia sido usado para levar Mykhailov de volta ao porto depois que terminasse seu trabalho de condução da embarcação.

Veja fotos de uma das maiores ofensivas aéreas da Ucrânia contra a Rússia desde o início da guerra

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Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,na periferia sudeste de Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Fumaça toma os céus de Moscou durante bombardeio ucraniano nesta quinta-feira — Foto: AFP

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Pessoas caminham em um parque enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Mulher caminha do lado de fora de um shopping center enquanto fumaça preta sobe da área da refinaria de petróleo da Gazprom Neft,produtora russa,nos arredores de Moscou — Foto: AFP

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Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Pessoas são vistas do lado de fora de um shopping enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Um homem tira fotos de uma ponte sobre o rio Moskva enquanto fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Uma mulher caminha em uma localidade residencial enquanto a fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Fumaça sobe da área da refinaria de petróleo russa Gazprom Neft em Moscou,em 18 de junho de 2026 — Foto: AFP

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Série de ataques ucranianos contou com mais de 500 drones

Enquanto escapavam,os sobreviventes viram o Golden Leo queimar “como uma fornalha”,diz Sebastian. Nove tripulantes e Mykhailov morreram no ataque. O navio afundou uma semana depois.

Elisabeth Braw,especialista em ameaças marítimas que trabalha no Atlantic Council,um centro de estudos,afirma que a Rússia estava conduzindo uma campanha sistemática e indiscriminada contra navios mercantes que transportavam produtos agrícolas e outras cargas não militares de e para os portos ucranianos. Segundo ela,esses ataques violam tratados como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

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Embora os petroleiros e navios cargueiros ligados à Rússia que a Ucrânia tem como alvo sejam tecnicamente embarcações civis,especialistas marítimos afirmam que Kiev os ataca porque eles são usados para contornar sanções e exportar energia que financia os esforços de guerra do Kremlin.

Países ocidentais já interceptaram algumas dessas embarcações,que fazem parte da chamada “frota fantasma” da Rússia. Na quarta-feira,durante uma visita a bordo de um navio de guerra russo no Pacífico,o presidente da Rússia,Vladimir Putin,classificou esses esforços como “pirataria e roubo” e prometeu “responder na mesma moeda”.

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Operadores russos frequentemente direcionam drones para permanecerem a alguns quilômetros da costa ucraniana,onde eles “procuram” navios mercantes,diz o primeiro-tenente Oleksandr,comandante de uma divisão de barcos-patrulha,em entrevista. Os drones russos também atacaram equipes de resgate após os ataques,afirma o comandante,que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado,de acordo com os protocolos militares ucranianos.

Depois que o míssil atingiu o Golden Leo,Sebastian sofreu queimaduras de primeiro grau. Assim como muitos colegas que ficam presos em mares perigosos ao redor do mundo,ele disse que não pretende mais navegar.

— Dinheiro não é mais importante do que a vida — afirma.

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