Hepatite C: existe cura, mas é preciso encontrar quem está doente

2026-08-07 HaiPress

Seringas,alicates e equipamentos de piercings e tatuagens podem oferecer riscos — Foto: Magnific

Poucas doenças expõem com tanta clareza os paradoxos da medicina quanto a hepatite C: uma infecção capaz de evoluir silenciosamente por décadas,causando fibrose,cirrose e câncer de fígado,mas que hoje pode ser curada em mais de 95% dos casos tratados. O Brasil dispõe de testes diagnósticos precisos,antivirais de altíssima eficácia e um programa público que oferece esse tratamento gratuitamente. O elo que ainda falta é a busca ativa: encontrar,a tempo,quem carrega o vírus sem saber.

O agente causador é o HCV,vírus RNA da família Flaviviridae,transmitido sobretudo por via parenteral: agulhas e seringas compartilhadas,instrumentos perfurocortantes e transfusões anteriores a 1993,ano em que a testagem obrigatória do sangue passou a vigorar no Brasil. Transmissão sexual e vertical (mãe-filho) também ocorrem,com frequência menor. Lâminas,alicates de unha e materiais de tatuagem e piercing sem os devidos cuidados somam-se aos fatores de risco.

Quem recebeu transfusões ou passou por grandes cirurgias antes de 1993,fez hemodiálise,teve exposição ocupacional a sangue ou se submeteu a procedimentos em condições sanitárias duvidosas deve buscar testagem,mesmo sem sintomas.

A maioria dos infectados permanece assintomática por anos. Quando presentes,os sinais são inespecíficos como fadiga,náusea,inapetência,desconforto abdominal,e a icterícia,quando ocorre,costuma ser tardia. Enquanto isso,o vírus mantém replicação persistente e inflamação hepática crônica,que em parcela significativa dos pacientes evolui para fibrose avançada,cirrose,insuficiência hepática e câncer de fígado. Ascite,sangramento digestivo,encefalopatia hepática e emagrecimento acentuado costumam sinalizar doença já avançada. Esperar sintomas para investigar é,portanto,uma estratégia arriscada.

O rastreamento começa com teste sorológico,que detecta anticorpos anti-HCV. Um resultado reagente indica exposição prévia,mas não confirma infecção ativa; parte das pessoas elimina o vírus espontaneamente. A confirmação exige detectar o material genético viral,o HCV-RNA,por biologia molecular; só essa etapa define quem precisa de tratamento.

A terapêutica mudou radicalmente na última década. Os antigos esquemas com interferon peguilado e ribavirina,longos e mal tolerados,foram substituídos pelos antivirais de ação direta (DAA),orais,que atuam sobre proteínas essenciais à replicação do HCV. Desde 2015 o Ministério da Saúde incorpora esses medicamentos ao SUS.

O esquema de primeira linha é,em geral,pangenotípico,como sofosbuvir associado a velpatasvir,por via oral durante oito a doze semanas,eficaz contra os principais genótipos circulantes no país e dispensando,na maioria dos casos,a genotipagem prévia. O protocolo prevê ainda combinações como ledipasvir/sofosbuvir e elbasvir/grazoprevir para situações específicas,contempla retratamento de falhas terapêuticas e disponibiliza formulações pediátricas. O resultado é uma taxa de resposta virológica sustentada superior a 95%,com efeitos adversos muito menores que os das terapias antigas.

Entre 2015 e 2025,o número anual de casos notificados caiu 34%,de cerca de 25,8 mil para 17 mil. A queda é positiva,mas não autoriza acomodação pois parte pode refletir subnotificação,não necessariamente menor circulação viral. O Ministério da Saúde persegue a meta,alinhada à OMS,de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública até 2030,o que exige ampliar a testagem,encurtar o intervalo entre triagem e confirmação diagnóstica,buscar populações de maior risco e garantir início rápido do tratamento após o diagnóstico.

Há também uma barreira social a enfrentar: a hepatite C não deveria carregar julgamento. O medo do estigma ainda afasta pacientes dos serviços de saúde.

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